Do Qi à Célula: A Medicina Chinesa no Cuidado Contemporâneo das Mamas


O Outubro Rosa é uma campanha de conscientização sobre o câncer de mama, instituída para ampliar o conhecimento da população sobre os métodos de prevenção, rastreamento e tratamento da doença.

No contexto da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), esse movimento convida à reflexão sobre o papel do acupunturista como agente de promoção de saúde — alguém capaz de atuar preventivamente, harmonizando o fluxo do Qi e do Sangue, enquanto integra a prática clínica às diretrizes contemporâneas de detecção precoce e autocuidado.

Mais do que uma campanha de prevenção, o Outubro Rosa simboliza um ponto de encontro entre o olhar científico e o olhar energético sobre a saúde feminina. Essa integração entre a medicina moderna e a MTC é não apenas possível, mas necessária. O profissional que compreende a dinâmica entre o corpo energético e a biologia molecular expande sua atuação: participa não apenas do tratamento, mas também da educação em saúde, da vigilância e do fortalecimento do terreno biológico.

O propósito deste artigo é explorar como a estagnação do Qi nos canais do tórax pode se relacionar com os processos biológicos complexos das doenças mamárias, e como a acupuntura pode ser um elo valioso nesse caminho duplo de prevenção e suporte.

1. Panorama epidemiológico nacional e global

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 73.610 novos casos de câncer de mama para 2025, com uma taxa ajustada de incidência de aproximadamente 41,89 por 100.000 mulheres.
Em escala internacional, o aumento projetado aponta para 38% mais casos e 68% mais mortes até 2050, segundo a International Agency for Research on Cancer (IARC), órgão vinculado à World Health Organization (WHO).

Esses dados reforçam que, mesmo em um cenário de alta tecnologia, o rastreamento e a vigilância permanecem os pilares fundamentais na luta contra o câncer de mama.

2. Visão da MTC: padrões de desequilíbrio e suas manifestações

Segundo a tradição da MTC, as doenças das mamas — sejam benignas ou malignas — não são eventos isolados, mas expressões de desequilíbrio energético que refletem o estado geral do corpo.

A Depressão do Fígado com Estagnação de Qi é um dos quadros mais comuns. O Fígado ( Gan) é responsável pelo fluxo livre do Qi e, quando afetado por estresse, frustração ou emoções reprimidas, o fluxo se torna irregular, manifestando-se como distensão e sensibilidade mamária, irritabilidade e sensação de aperto torácico.

Com o tempo, essa estagnação pode gerar calor e invadir o canal do Estômago (Yang Ming), dando origem ao padrão de Calor Depressivo Fígado-Estômago, que se manifesta com dor, inflamação e sensação de calor ou vermelhidão local.
Se não houver resolução, o Baço ( Pi) enfraquece, surgindo o padrão de Depressão Hepática com Vacuidade Esplênica — caracterizado por fadiga, acúmulo de fluidos, distensão abdominal e língua inchada.

A deficiência de transformação e transporte de fluidos cria terreno para Estase de Sangue e Nodulação de Catarro: massas fixas ou móveis, alterações de coloração da pele e sensação de peso nas mamas.

Esses padrões, quando reconhecidos e tratados precocemente, representam a base do trabalho preventivo do acupunturista. Eles não significam a presença de uma neoplasia, mas indicam um terreno energético propício ao adoecimento — um campo fértil para intervenção clínica e educação em autocuidado.

3. Rastreamento, tratamento e papel da acupuntura

A oncologia moderna oferece ferramentas de precisão, tanto no diagnóstico quanto no tratamento. Esse avanço coloca a MTC em posição de complementaridade e suporte clínico, ampliando o alcance da atenção à saúde.

Uma revisão sistemática com meta-análise mostrou que a acupuntura tem impacto positivo nos resultados relatados por pacientes com câncer de mama, promovendo alívio da dor, melhora do sono e redução de sintomas vasomotores — embora ainda se exija maior rigor metodológico nas pesquisas.
Estudos brasileiros também confirmam que, entre sobreviventes de câncer de mama, a acupuntura é uma prática segura e eficaz para o alívio de sintomas a longo prazo.

Esses achados reforçam o papel da acupuntura como recurso adjuvante de base científica, capaz de melhorar desfechos clínicos e qualidade de vida em diferentes fases do tratamento.

Com base nisso, o profissional de MTC pode atuar em três frentes principais:

  • Prevenção do terreno: mover o Qi, nutrir o Sangue e fortalecer as funções de Fígado e Baço;
  • Intervenção precoce: tratar sinais iniciais como distensão, sensibilidade ou pequenos nódulos;
  • Suporte terapêutico: auxiliar pacientes em tratamento oncológico, reduzindo efeitos adversos e promovendo qualidade de vida.

4. Aplicação clínica: uma abordagem integrativa

Na prática clínica, o primeiro passo é uma avaliação energética abrangente, que inclui o histórico emocional, ginecológico, alimentar e de estilo de vida. A observação da língua, do pulso e da expressão emocional fornece pistas sobre os padrões de Qi e Sangue. Um pulso em corda (xian mai) revela tensão nos canais e possível estagnação; uma língua escurecida ou manchada indica Estase de Sangue; já o revestimento espesso pode sugerir acúmulo de Umidade ou Catarro.

Durante o exame físico, o acupunturista observa sinais sutis — como alterações de sensibilidade, tensão tecidual e variações de temperatura local — correlacionando-os aos padrões da MTC. O tratamento busca restaurar o fluxo livre de Qi e Sangue, nutrir o terreno e dispersar estagnações.

Entre os pontos frequentemente utilizados estão F3 (太冲, Taichong) e F14 (期門, Qimen), que liberam o Qi do Fígado e restauram o fluxo emocional; BP6 (三陰交, Sanyinjiao) e BP10 (血海, Xuehai), que fortalecem o Baço e nutrem o Sangue; E18 (乳根, Rugen), ponto local essencial para regulação mamária; B17 (膈兪, Geshu), que mobiliza o Sangue; e CS6 (內關, Neiguan), que acalma o Shen e reduz o impacto do estresse emocional.

As técnicas podem incluir eletroacupuntura leve em casos de dor ou rigidez, com sessões em ciclos de seis a oito semanas e acompanhamento contínuo das respostas clínicas — observando dor, sensibilidade, humor e sono.

Em pacientes em tratamento oncológico ou na fase pós-terapia, a acupuntura atua como aliada no controle da fadiga crônica, dor pós-cirúrgica, linfedema, neuropatia e fogachos hormonais. Evidências recentes apontam melhora significativa da qualidade de vida e da adesão terapêutica quando a acupuntura é integrada ao plano convencional de cuidado.

Essa integração exige diálogo constante com a equipe médica, reforçando o papel do acupunturista como parte ativa da rede multiprofissional de saúde.

No cotidiano clínico, o terapeuta também orienta sobre o cultivo do terreno energético — alimentação equilibrada, sono reparador, atividade física moderada e práticas de regulação emocional como tai chi, qi gong e respiração profunda.
O objetivo é preservar o fluxo do Qi e do Sangue, prevenindo novas estagnações.

A vigilância, nesse contexto, não é apenas biomédica: é também energética e emocional. Ela envolve exames regulares, mas igualmente a escuta atenta do corpo e das emoções. O acupunturista, assim, torna-se parceiro terapêutico em todas as etapas: prevenir, tratar, monitorar e mobilizar para o autocuidado consciente.

5. Considerações finais

Quando equilibramos a precisão da biologia com a sensibilidade da Medicina Tradicional Chinesa, ampliamos o alcance da prática clínica e aprofundamos a compreensão sobre o processo saúde-doença. O diálogo entre rastreamento precoce, biotecnologia e regulação do Qi não é uma justaposição de paradigmas, é uma convergência necessária, fundamentada na observação e na experiência.

Para o acupunturista, a tarefa contemporânea é cultivar um olhar duplo: clínico e energético, científico e humano. Isso significa compreender que cada paciente é mais do que um diagnóstico, e que cada agulha, cada sessão, é uma oportunidade de reorganizar fluxos e restaurar vitalidade.

O Outubro Rosa, nesse sentido, não é apenas um mês de alerta populacional, mas um chamado ético e técnico para que o terapeuta se consolide como educador em saúde, promotor de equilíbrio e integrante ativo das estratégias de prevenção.

O futuro do cuidado com a mama — e da acupuntura na oncologia — dependerá da capacidade de compreender a célula sem perder o Qi, e interpretar o Qi sem esquecer a célula.
Essa é a verdadeira arte clínica: observar, correlacionar e agir com base em evidência, escuta e observação clínica.

 Referências Bibliográficas

  1. Y. Zhang, Y. Sun, D. Li et al. “Acupuncture for Breast Cancer: A Systematic Review and Meta-Analysis of Patient-Reported Outcomes.” Frontiers in Oncology, vol. 11, 2021. Frontiers

  2. S. Jang, Y. Ko, Y. Sasaki et al. “Acupuncture as an Adjuvant Therapy for Management of Treatment-Related Symptoms in Breast Cancer Patients: Systematic Review and Meta-Analysis (PRISMA-compliant).” Medicine, 2020;99:50. ResearchGate

  3. Instituto Nacional de Câncer. Controle do câncer de mama no Brasil: dados e números 2025. Rio de Janeiro: INCA, 2025. Ninho INCA+1

  4. Instituto Nacional de Câncer. “Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil 2023-2025.” Estimativa – INCA, 2022. Serviços e Informações do Brasil+1

  5. “Acupuncture for the management of breast cancer: A review of its current evidence.” Revista Internacional de Acupuntura, vol. ? (2025). www.elsevier.com

  6. “Use of acupuncture in women surviving breast cancer: an integrative review.” Revista Visão Acadêmica, Curitiba, v. 23, n. 2, Abr.–Jun. 2022. Revistas UFPR+1

  7. INCA – Estatísticas por região e taxa de incidência: “Incidência — Instituto Nacional de Câncer.” (2022) Serviços e Informações do Brasil


















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