A arte do autocuidado no tempo do recolhimento: O espírito do inverno








No instante em que o silêncio se torna mais denso, as noites mais longas e o frio mais profundo, uma mudança silenciosa ocorre: nasce o primeiro movimento Yang. Esse evento, mais do que uma marca astronômica no calendário, é um marco fisiológico e espiritual no universo da medicina chinesa. O solstício de inverno, conhecido como “Dong Zhi” (冬至), é o ponto de transição em que o Yin atinge seu ápice e o Yang começa a emergir de forma imperceptível, mas determinante.

De acordo com o Lü Shi Chun Qiu (吕氏春秋), durante o inverno, o imperador usava vestes negras e jade escuro. Nada deveria ser desenterrado. Tudo, inclusive as cidades, devia estar selado. É uma imagem que ecoa a grande lição do inverno: guardar e preservar.

Na Teoria dos cinco elementos (ou movimentos), o inverno é regido pela Água (), que simboliza o encerramento, a introspecção, a profundidade e o armazenamento. O segundo capítulo do Huang Di Nei Jing Su Wen descreve:

 

Os três meses de inverno são chamados de fechamento e armazenamento. A água congela e a terra se parte. Não perturbe o Yang – vá dormir cedo e levante-se tarde. Você deve esperar o sol brilhar” (Su Wen, cap. 2). 

Na visão chinesa, as estações são manifestações do ciclo eterno entre Yin e Yang. O inverno é o Yin Maior (tai yin 太阴), e é exatamente nesse extremo que ocorre o nascimento do Yang, evento nomeado de “Dong Zhi Yi Yang Sheng” (冬至一阳生) – o surgimento do primeiro Yang. O capítulo 18 do Su Wen reforça que “quarenta e cinco dias após o solstício de inverno, o Yang começa a subir e o Yin a declinar”

Qi é Yang, e Yang representa o oposto de fechamento e armazenamento. Para harmonizar com o inverno, precisamos adotar uma postura Yin. Durante o sono, o Qi se move para o interior do corpo, aquecendo as vísceras (Zang) e protegendo os órgãos internos. Por isso, no inverno, dormir mais — deitar-se mais cedo e acordar mais tarde — é uma prática vital de saúde, conforme preceituado pelo Su Wen.

No entanto, a vida moderna raramente respeita essas mudanças sazonais. Trabalhamos com o mesmo ritmo frenético nos meses de inverno, desrespeitando o chamado natural ao recolhimento. A cultura contemporânea, ao exaltar a eterna juventude, o desempenho constante e o culto ao Yang, falha em reconhecer que a verdadeira longevidade e equilíbrio exigem Yin — pausa, escuta interna (meditação), descanso.

Qi Bo, o sábio que dialoga com o Imperador Amarelo no Huangdi Neijing, parece antecipar esse desafio humano. Em diversas recomendações sazonais do texto, há sugestões sutis. Mas curiosamente, apenas na seção sobre o inverno aparece a palavra "deve" (). Ele diz: "Você deve esperar pelo brilho do sol". Esse “deve” não é um capricho retórico: é um lembrete da gravidade do que está em jogo. Sem esse recolhimento, sem essa entrada deliberada no Yin, o Qi se esvai. E o preço pago é o envelhecimento precoce, a exaustão e o adoecimento. É necessário descansar!

Mesmo no silêncio do frio, o primeiro sopro de calor germina dentro da terra. Esse é o momento ideal para proteger o que ainda não nasceu.


“...Faça a mente parecer recolhida, como algo oculto e guardado. Afaste-se do frio e busque o calor; não exponha a pele para evitar a rápida perda de energia. Essa é a resposta adequada ao Qi do inverno — o caminho para nutrir o encerramento. Se agir ao contrário, danifica os rins; na primavera poderá surgir fadiga (wei jue), e a força para nutrir a vida será reduzida.” (Su Wen, cap. 2)

Nesta passagem, o Su Wen estipula claramente o protocolo para manter o equilíbrio Yin–Yang no inverno: recolhimento interno, ritmo de sono adaptado à luz solar, proteção ao calor e cuidado com os Rins — o ponto central do plano de vida energético durante e após o solstício.

Conselhos de ouro do Su Wen (Cap. 2)

Recomendado no Inverno

Objetivo terapêutico

Dormir cedo, acordar com o sol

Preservar o Yang e seguir a luz natural

Evitar o frio, manter-se aquecido

Proteger a energia dos Rins

Evitar suores e exposição excessiva

Conservar o Jing e o Qi essencial

Comer sopas, cozidos e alimentos quentes

Nutrir o Yin e fortalecer o Yang

Praticar introspecção e silêncio

Recolher o Shen e proteger a mente

 Mandamentos de Qi Bo para o inverno:

Mandamento de Qi Bo no Inverno

Ação sugerida

“Você deve esperar o brilho do sol”

Acorde tarde

“Faça a mente parecer recolhida”

Medite, não se exponha

“Evite suar”

Não disperse Qi

“Evite o frio”

Preserve o Yang dos Rins

 

O Silêncio da Mente: Introspecção como Medicina

Além de dormir e descansar mais, o inverno exige também um recolhimento da mente e das intenções. O Huangdi Neijing aconselha:

... “Permita que a mente-vontade (Zhi) entre em um estado oculto, como se estivesse trancada – não muito diferente de alguém com intenções secretas, como alguém que já obteve ganhos ocultos.” (Su Wen, Cap. 2).

Esse estado de introspecção é mais do que uma atitude mental: é um alinhamento energético com a estação da Água, cuja profundidade carrega sabedoria. Nesse período, somos chamados a uma pausa meditativa, a um silêncio fértil no qual refletimos, assimilamos e planejamos. Não é o momento de agir — é o momento de gestar a intenção.

Assim, o inverno se torna o cenário ideal para práticas como meditação, escrita reflexiva, contemplação do passado e elaboração de propósitos e projetos. É o tempo de afiar a espada em silêncio — para que o corte seja preciso na estação do florescimento.

Guardar o Calor, preservar o Qi: o segredo do Silêncio

O Nei Jing oferece também uma advertência prática e profunda:

...Evite o frio e busque o calor. Evite transpirar, pois isso faz com que o Qi seja levado embora rapidamente. Isso está em ressonância com o Qi do inverno e o Caminho para nutrir o armazenamento.” (Su Wen, Cap. 2).

O inverno, sendo a estação mais fria do ano, exige do praticante de medicina chinesa uma atenção refinada à regulação térmica. Embora no verão a transpiração seja um processo natural e benéfico, sua ocorrência no inverno — especialmente em decorrência de agasalhos excessivos ou atividade física imprópria — representa uma ameaça à preservação do Qi. Quando transpiramos, abrimos os poros, e isso dissipa o calor interno (Yang Qi) tão necessário para aquecer os órgãos e manter a energia vital.

Vestir-se adequadamente, protegendo áreas-chave como lombar, pés e cabeça, é mais do que um cuidado superficial: é uma estratégia de sustentação do Jing. A prática do yang cang (養藏) — nutrir o armazenamento — é um princípio que antecede qualquer prescrição clínica. È preservar o que ainda está se formando.

Na linguagem da MTC, yang cang é inseparável de yang sheng (養生) — nutrir a vida. É uma medicina do invisível, que atua ao impedir a perda, ao invés de apenas restaurar o perdido. Em outras palavras, é mais sábio manter o calor do que precisar reacendê-lo. Aqueles que ressoam com o Yin supremo do inverno e evitam os extremos térmicos entram em harmonia com o ciclo natural da vida e fortalecem suas raízes para o florescimento futuro.

Frio – o patógeno da dor

O padrão climático e, portanto, a doença maligna (ou seja, o patógeno) associado ao inverno é o frio (han ). O frio é yin, associado à fase da Água. No corpo, o frio tem a tendência de criar o movimento do Yin, que, na verdade, é uma falta de movimento. Portanto, o frio cria estagnação, uma falta de movimento no Qi, no Sangue, nos Fluidos.

O inverno, com sua natureza extrema Yin, nos ensina a importância do recolhimento e do armazenamento. No entanto, esse mesmo frio — quando em excesso ou mal equilibrado — torna-se patógeno. O Nei Jing associa o frio (han ) ao inverno, e como patógeno, ele está intimamente ligado à dor.

Sinais clínicos da ação do frio

Dor articular que piora com frio

Rigidez matinal ou à noite

Urina clara e abundante

Pulso profundo, lento e tenso

 

A estagnação como doença do inverno

Na MTC, diz-se: “Bu tong ze tong” (不通則痛) – ‘Onde não há movimento, há dor’. Essa máxima é ilustrada de forma elegante na etimologia dos caracteres chineses:

  • Teng (), um dos termos para dor, une o radical de doença () ao caractere de inverno (). A dor, assim, é vista como uma enfermidade de natureza invernal — uma expressão do Yin que se estagna.
  • Tong (), outro caractere para dor, combina o radical de doença com o caractere que representa caminho (), o mesmo presente em “movimento” (). Isso sugere que a dor nasce quando os caminhos — os meridianos — são obstruídos.

Essa compreensão está na raiz do tratamento da dor no inverno. Ao sabermos que a dor é uma estagnação Yin, entendemos que a solução está no movimento — o Yang. Como diz outro ditado: “Tong ze bu tong” (通則不痛) – ‘Promova o movimento e não haverá dor’.

Portanto, terapias que possuem natureza Yang — como acupuntura, moxabustão, massagem (Tuina) e exercícios terapêuticos — são indicadas. O uso de calor localizado, por exemplo, é uma escolha intuitiva e poderosa para aliviar a rigidez, aquecer os canais e liberar o fluxo de Qi. O gelo, tão usado na medicina ocidental moderna, pode agravar a estagnação, especialmente em dores crônicas. Isso se manifesta clinicamente como rigidez, lentidão e sensação de peso.

Reconhecer que o frio é tanto estação quanto patógeno, e que sua natureza Yin pode cristalizar o Qi e o Sangue, nos permite compreender por que tantas pessoas sentem mais dores nas articulações, músculos e coluna no inverno. E, mais ainda, nos oferece os caminhos para tratá-las.

A Dor no Inverno: Quando o Frio Paralisa o Qi

Não por acaso, as dores crônicas se intensificam no inverno. O frio é, na MTC, um dos Seis Fatores Patogênicos (Liu Xie) e tem como característica a contração, estagnação e obstrução do fluxo do Qi e do Sangue.

"O frio causa contração, e a estagnação do Qi provoca dor." (Su Wen, Cap. 74)

Dor lombar, rigidez matinal, artrite agravada e sensação de peso nos membros são manifestações comuns nesta época. A estagnação do Qi, combinada com deficiência de Yang do Rim, leva à dor óssea, dificuldade de movimentação e exaustão vital.

Como tratar?

  • Moxabustão em VG4 (Mingmen), B23 (Shenshu) e VC4 (Guanyuan)
  • Fitoterapia: Du Huo Ji Sheng Tang para dores ósseas com frio e deficiência
  • Dietoterapia: sopas com carne de cordeiro, gengibre e canela
  • Qigong e massagem: estimular os meridianos Taiyang e Shaoyin nos membros inferiores

Essas abordagens ajudam a dissolver o frio, ativar a circulação e restaurar o calor interno necessário para aliviar a dor.

Quadro de Observação Clínica- Sinais de deficiência do Yang dos Rins

Frio persistente em membros inferiores

Urina clara e abundante

Fadiga e apatia mental

Desejo por silêncio e recolhimento

Pulso profundo e fraco

Dores lombares ao frio

 

A Moxabustão como Guardiã do Yang

Agulha e moxa: as duas asas do tratamento -  Zhen Jiu (針灸).

Na medicina chinesa, o termo “acupuntura” traduz o ideograma composto zhen jiu (針灸), que se refere não apenas às agulhas (zhen), mas também à moxabustão (jiu), uma prática tão antiga quanto as agulhas.

A moxabustão consiste na queima da planta artemísia (Artemisia vulgaris), transformada em uma lã chamada ai rong (艾絨), cuja queima aquece os pontos de acupuntura e os canais por onde circulam o Qi e o Sangue. Por sua natureza quente, ela é especialmente indicada nas estações frias como o inverno, para dispersar o frio patogênico e ativar o Yang interno.

Diversos métodos podem ser empregados:

  • Cone direto: pequeno como um grão de arroz, colocado sobre a pele (método japonês chinetsukyu 知熱灸).
  • Cone indireto: colocado sobre fatias de gengibre ou alho.
  • Bastão de moxa: semelhante a um charuto, usado sem contato direto com a pele — ideal para uso domiciliar.

Pontos clássicos para moxa preventiva no inverno:

Ponto

Localização

Ação

Zu San Li (E36)

3 cun abaixo do joelho

Fortalece Baço, Estômago e Qi Original, reforça a imunidade e favorece a longevidade

Qi Hai (VC6)

1,5 cun abaixo do umbigo

Mar de Qi”, aquece o Yuan Qi, fortalece os Rins e trata fraqueza, dores abdominais e estagnação por frio

 







A moxabustão pode ser aplicada diariamente durante o início do inverno como prevenção. É especialmente indicada para pacientes com mais de 40 anos ou com histórico de doenças crônicas e cansaço profundo. Amoxabustão é o primeiro método de Nutrição da Vida (yang sheng 養生) e prevenção de doenças.

A sua aplicação cuidadosa e regular ao longo do inverno é um verdadeiro escudo de calor e proteção contra os excessos do frio externo e as estagnações internas.

Num mundo em que tudo acelera, queimar moxa é um ato de desacelerar consciente. É acender o sol nas vísceras. Cada fio da Artemísia carrega a memória da terra quente. E quando queimamos essa erva no inverno, estamos invocando o Yang ancestral, aquele que protege o Jing como uma semente.

Comer e Beber no Inverno: Nutrição como Medicina

A alimentação de inverno deve ser quente, nutritiva e reconfortante. A escolha dos alimentos não é apenas cultural, é terapêutica.

Alimento

Propriedades na MTC

Ação no Inverno

Cordeiro

Quente, tonifica o Yang

Aquece os Rins

Feijão preto

Salgado, entra nos Rins

Nutre o Jing

Gengibre

Morno, dispersa frio

Estimula o Qi

Canela

Quente, aquece o Ming Men

Revigora o Yang

 

Evite alimentos crus, bebidas geladas, frutas tropicais e açúcar em excesso. Prefira sopas, mingaus (congee), caldos nutritivos e chás que aquecem o centro.

Preservar a Vida: A Prática de Yang Sheng (养生)

Cultivar a vida — Yang Sheng — é o propósito maior da medicina. No inverno, isso se manifesta pela arte de silenciar e recolher.

"Permita que a mente entre num estado oculto, como se já tivesse alcançado algo." (Su Wen, cap. 2). 

O estado mental recomendado é de introspecção. Não é tristeza, mas contentamento sereno. É o mesmo espírito de Ano Novo — planos ainda não revelados, cultivados no escuro como uma semente no solo.

Reflexão final

Nutrir a vida no inverno é um ato de sabedoria. É compreender que saúde não é sempre ação, mas também contenção. Não é sempre luz, mas também sombra fértil. O inverno é o convite mais profundo que a natureza nos faz: volte para casa, recolha sua luz, proteja sua raiz.

Como diz o Nei Jing:


“Quando Jing e Shen são protegidos internamente, de onde poderia surgir a doença?” (Su Wen, Cap. 1).


Referências Bibliográficas

  1. Unshuld, P. Huang Di Nei Jing – Su Wen, Capítulos 1, 2, 5, 18, 74.
  2. Unshuld, P. Huang Di Nei Jing – Ling Shu.
  3. Spring and Autumn of Lu Buwei - 吕氏春秋 II. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/469101253/The-Spring-and-Autumn-of-Lu-Buwei-%E5%90%95%E6%B0%8F%E6%98%A5%E7%A7%8B-II
  4. Wiseman, N., Ellis. Fundamentals of Chinese Medicine. Paradigm Pubns, 2020.
  5. Wang YY, Wang SH, Jan MY, Wang WK. Past, Present, and Future of the Pulse Examination (mài zhěn). J Tradit Complement Med. 2012 Jul;2(3):164-85. doi: 10.1016/s2225-4110(16)30096-7. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3942893/























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