Jin Bie: A Arte de Ouvir o Que Está Debaixo da Pele
Essa frase, tantas vezes repetida em consultórios, rodas de
terapia e livros sobre trauma, guarda em si um dos maiores segredos da medicina
chinesa clássica: o corpo não apenas sente, ele registra. E muito do que ele
arquiva, especialmente aquilo que permanece silenciado ou não resolvido,
encontra morada nos canais profundos, os chamados Meridianos Divergentes, ou Jing
Bie.
Esses meridianos são como corredores secretos entre os
andares de uma casa. Caminhos que ligam o que está aparente àquilo que se
esconde por trás das portas fechadas. E em determinados pontos, essas portas se
abrem. São os pontos de união dos Jing Bie. Portais de escuta, acesso e
transformação.
O que são os Pontos de União?
Dentro da fisiologia dos Jing Bie, os pontos de união (ou
pontos de confluência) são os locais onde o meridiano divergente se conecta
novamente ao meridiano principal correspondente ou atravessa os grandes vasos,
como o Du Mai. São pontos estratégicos onde a energia do corpo — especialmente
o Yuan Qi e o Wei Qi — se encontram para equilibrar, proteger e redirecionar
funções energéticas profundas.
Mais do que apenas pontos para liberação de dor, os pontos
de união têm o poder de abrir o acesso a informações que estão em latência. São
como portais terapêuticos por onde passamos quando o corpo está pronto para
lembrar, processar e, sobretudo, liberar.
Por que isso importa para o acupunturista?
Porque muitas das queixas que chegam ao consultório hoje vão
além da esfera superficial. Estamos diante de um crescente número de casos
crônicos, autoimunes, somatizações, dores que migram, sintomas que somem e
voltam sem lógica aparente. Estamos tratando pessoas que, muitas vezes, não
conseguem mais nomear suas dores, mas sentem. E sentem muito.
Nessas situações, os Jing Bie e seus pontos de união nos
oferecem um mapa. Um caminho que desce além da superfície para acessar níveis
mais profundos, onde o sintoma se tornou uma linguagem secundária, e a raiz
permanece aguardando escuta.
Um Exemplo na Prática: A Dor que Não Era Dor
Recebi uma paciente de 38 anos com um histórico de dores
recorrentes nos ombros e cervical. Fez fisioterapia, massagens, acupuntura
convencional. Melhorava por alguns dias, mas os sintomas voltavam. Ela relatava
também ansiedade noturna e uma sensação de pressão no tórax quando estava
emocionalmente sobrecarregada.
Ao investigar mais profundamente, surgiu um padrão de raiva
contida e histórico de frustração acumulada. A anamnese corporal e emocional
indicava o Jing Bie do Fígado e Vesícula Biliar. Optei por trabalhar com os
pontos de união desse eixo: VB1 e VC2, acrescido de F3 e VB30.
Após três sessões com foco nesses pontos, associando
liberação miofascial leve e orientação respiratória, não apenas a dor reduziu
significativamente, mas a paciente relatou um episódio inesperado de choro
catártico após a segunda sessão, seguido por uma sensação de leveza que ela não
sentia há anos.
Ali, a dor deixou de ser apenas "física".
Tornou-se ponte para um desbloqueio emocional profundo. Isso é Jing Bie em
movimento.
Breve explicação dos pontos utilizados
- VB1
(Tongziliao): Localizado na região lateral do olho, é um ponto de
grande conexão entre os sistemas interno e externo, favorecendo a
liberação de tensão acumulada na cabeça e olhos. Em tratamentos que
envolvem frustrações reprimidas, pode ser um canal para desbloquear
emoções ligadas à visão — literal e simbólica — da vida.
- F3
(Taichong): Considerado um dos pontos mais importantes para a
circulação do Qi do Fígado. Seu estímulo suaviza a estagnação emocional,
regula o ciclo menstrual, reduz irritabilidade e é fundamental no
tratamento de dores associadas ao estresse emocional.
- VB30
(Huantiao): Um ponto de profunda ação sobre a musculatura glútea e a
região lombar, atua também na liberação de tensões que o corpo arquiva nas
grandes articulações. Estimula a circulação energética do canal da
Vesícula Biliar, ajudando a desbloquear padrões crônicos de rigidez, tanto
física quanto emocional.
- VC2 (Qugu): Localizado sobre a sínfise púbica, é um ponto que se relaciona com o aquecimento do aquecedor inferior e com os meridianos extraordinários. Pode ser utilizado para liberar padrões enraizados relacionados a sexualidade, insegurança e desconexão da base.
Por que isso funciona?
Dopamina é o neurotransmissor da antecipacão e recompensa.
Quando o terapeuta encontra um ponto de união que, ao ser estimulado, gera
alívio rápido ou revela uma chave emocional, o paciente experimenta prazer,
esperança, surpresa. Isso ativa dopamina.
Já a ocitocina, conhecida como o hormônio do vínculo, é
despertada quando o paciente se sente compreendido, visto, acolhido. Ao
trabalhar os Jing Bie com escuta e presença, o terapeuta abre espaço para que o
corpo finalmente diga: "agora eu posso confiar".
Na prática, quando um paciente chora após anos de contenção,
ou quando uma dor de dez anos desaparece após uma sessão emocionalmente
significativa, o que estamos vendo é isso: relação terapeuta-paciente eficiente
e de confiança.
Integrando com a Psicossomática Moderna
Autores como Peter Levine, Gabor Maté e Bessel Van der Kolk
têm mostrado como o corpo armazena trauma e como a cura é um processo que
envolve escutar sensações, acessar memórias e liberar energia estagnada. Tudo
isso está presente no raciocínio por trás dos Jing Bie.
Os pontos de união são, nesse contexto, dispositivos
somáticos de escuta. Ao estimulá-los com intenção e compreensão, o
acupunturista atua como mediador entre corpo e memória, entre dor e cura.
Em um mundo que vive cada vez mais na velocidade e na
superficialidade, o tratamento usando os Jing Bie nos lembra da importância de
descer, escutar e tocar o que está oculto.
Os pontos de união são portais para essa escuta. E ao
utilizá-los, não apenas tratamos sintomas. Tocamos histórias. Abrimos espaço
para que o corpo possa, enfim, soltar o que estava preso.
Essa é a medicina que desperta, que escuta, que transforma.
Essa é a beleza dos Jing Bie em suas mãos.
Referências:
1. Levine, P. (1997). O Despertar do Tigre: Curando o Trauma. Summus.
2. Maté, G. (2011). When the Body Says No: Exploring the Stress-Disease Connection. Vintage Canada.
3. Van der Kolk, B. (2015). O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, Mente e Corpo na Cura do Trauma. Zahar.
4. Sanchez, C.G.(2023) Princípios básicos da acupuntura clássica chinesa, volume 2, Ed:Vidacupuntura.
8. Ebook Jing Bie - Os caminhos profundos da energia. Disponível em: https://go.hotmart.com/M98460993J?dp=1

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