Seu corpo, seus mares: reconhecendo os limites da energia
Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), o corpo humano pode ser comparado a um grande oceano interno, com mares que carregam e distribuem energia vital. Jean-Marc Eyssalet, em suas reflexões, nos convida a observar o corpo como um sistema dinâmico, onde a interação entre o Claro (Qing) e o Turvo (Zhuo) revela o estado da nossa vitalidade. Estes conceitos, longe de serem abstrações místicas, traduzem um processo contínuo de purificação e transformação essencial para a saúde. Vamos navegar por essas ideias e compreender como elas se manifestam nos Quatro Mares e como podem ser aplicadas à prática clínica.Segundo Eyssalet, o Claro é a energia refinada que sobe e nutre as partes superiores do corpo, como pulmões, coração e cérebro. Ele se refere à essência leve e sutil que circula para manter a clareza mental e a vitalidade emocional. Já o Turvo representa a matéria bruta e densa, necessária para o processo de transformação, mas que, se não for adequadamente processada, pode se acumular, gerando bloqueios. Na visão do autor, o equilíbrio entre Claro e Turvo não é estático, mas um movimento constante de separação, purificação e integração.
Para enriquecer essa compreensão, Eyssalet também traz os símbolos do Dragão e do Tigre, figuras que representam o movimento energético ascendente e expansivo e o controle descendente e estabilizador. O Dragão simboliza a força criativa que sobe e traz vida ao corpo, enquanto o Tigre representa a contenção e a disciplina, assegurando que a energia permaneça organizada e útil. O equilíbrio entre Dragão e Tigre reflete a harmonia entre expansão e contenção – ou, na fisiologia energética, entre o Claro que se eleva e o Turvo que precisa ser processado e liberado.
Os Quatro Mares: Reservatórios de Energia Vital
Eyssalet descreve os Quatro Mares como grandes reservatórios de vida que abastecem o corpo e mantêm seu funcionamento em equilíbrio. A seguir, exploramos cada um deles sob a perspectiva do fluxo de Claro, Turvo, Essência e as influências simbólicas do Dragão e do Tigre.
Função de Proteção: O Mar dos Alimentos sustenta o corpo ao fornecer energia essencial para as atividades diárias e impede o uso precoce da Essência guardada.
Interação Dragão e Tigre: O Dragão impulsiona a energia dos alimentos para cima, alimentando os órgãos superiores, enquanto o Tigre organiza e regula esse processo, evitando que o fluxo se torne caótico.
Desafios Clínicos: Uma alimentação inadequada ou refeições realizadas com pressa podem gerar estagnações, levando a uma digestão lenta e sintomas de peso e distensão.
Intervenção: O ponto Estômago 36 (Zu San Li) fortalece o Qi digestivo e auxilia na transformação eficiente dos alimentos.
Função de Proteção: Mantém a circulação de Qi e sangue e promove vitalidade física e mental.
Interação Dragão e Tigre: O Dragão expande o Qi pela inspiração, trazendo mais energia vital ao corpo, enquanto o Tigre atua na expiração, controlando e estabilizando o fluxo de energia.
Desafios Clínicos: A respiração superficial, causada por estresse ou ansiedade, compromete o abastecimento desse reservatório, levando ao cansaço e à sensação de aperto no peito.
Intervenção: O ponto Ren Mai 17 (Dan Zhong - VC17) é eficaz para liberar tensões no tórax e restaurar o fluxo de energia.
Função de Proteção: Este reservatório impede o acúmulo de tensões e mantém a flexibilidade do corpo, promovendo uma circulação eficiente de Qi e sangue.
Interação Dragão e Tigre: O Dragão ativa e mobiliza o Qi ao longo dos meridianos, enquanto o Tigre assegura que a energia não se disperse, preservando a integridade do sistema.
Desafios Clínicos: A ausência de movimento físico e as tensões emocionais podem gerar bloqueios, causando dores e rigidez.
Intervenção: O ponto Baço-Pâncreas 6 (San Yin Jiao) fortalece a circulação energética e equilibra o fluxo entre os três aquecedores.
Função de Proteção: Sustenta a saúde do sistema nervoso e preserva a memória e a concentração.
Interação Dragão e Tigre: O Dragão representa a elevação do espírito e a capacidade de acessar ideias criativas e intuitivas, enquanto o Tigre regula e organiza essas ideias, garantindo um foco estruturado.
Desafios Clínicos: O excesso de trabalho mental, a privação de sono e o estresse contínuo podem drenar a Essência, enfraquecendo o Mar das Medulas.
Intervenção: O ponto Du Mai 20 (Bai Hui) é indicado para elevar o Qi e promover clareza mental.
Interconexão dos Quatro Mares
Os Quatro Mares não funcionam de forma isolada, mas como um sistema interdependente. O Mar dos Alimentos fornece nutrientes para o Mar da Energia, que impulsiona o fluxo do Mar dos Meridianos e sustenta o Mar das Medulas. Quando um dos mares é desabastecido, os outros acabam sendo sobrecarregados.
Por exemplo, uma dieta pobre pode enfraquecer o Mar dos Alimentos, levando o Mar da Energia a compensar essa deficiência com um esforço maior, o que resulta em um aumento da respiração superficial e em cansaço físico e mental. Este desequilíbrio se propaga, afetando a circulação nos meridianos e sobrecarregando o Mar das Medulas, levando a quadros de falta de concentração e exaustão.
Práticas para Fortalecer os Quatro Mares
Pequenas ações podem restaurar o equilíbrio entre Claro e Turvo e preservar a Essência:
Respiração Consciente: Realizar ciclos de respiração profunda por três minutos ao longo do dia.
Alimentação Leve: Preferir refeições ricas em alimentos cozidos e evitar grandes refeições em horários próximos ao sono.
Movimento e Pausas: Inserir pausas para alongamento e caminhar de forma consciente.
Silêncio e Descanso: Reservar momentos de introspecção para reduzir a sobrecarga mental.
O equilíbrio entre Claro, Turvo, Dragão e Tigre, segundo Eyssalet, não é um estado fixo, mas um processo dinâmico de transformação e renovação. Os Quatro Mares nos mostram que saúde é um ciclo de nutrição e eliminação. O Dragão nos lembra da força criativa que nos impulsiona para a ação, enquanto o Tigre nos ensina a proteger e estruturar essa energia.
Quando aprendemos a nutrir o corpo e a mente com leveza e liberar o que não nos serve, fortalecemos nossa vitalidade e prolongamos a vida. Ao cuidarmos dos mares internos, promovemos um estado de saúde integral, onde a clareza e a força caminham juntas e preservamos o nosso Jing.
E você, como está cuidando dos seus mares internos?
Referência
Eyssalet, Jean-Marc. La Rumeur de Dragon et l'Ordre du Tigre. Paris: Guy Trédaniel Éditeur, 1999.
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