Os segredos da longevidade saudável
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| Cristiane Sanchez |
Ah, a arte de nutrir a vida!
Nutrir a vida é a arte e ciência chinesa de viver promovendo a longevidade, minimizando os impactos do envelhecimento e maximizando a saúde. Desde os tempos imemoriais, os sábios da China nos ensinam que a chave para uma vida longa e saudável reside em cuidar do corpo, da mente e do espírito. E quem diria que essas lições, discutidas pela primeira vez em 221 a.C., continuariam tão relevantes no século XXI?
A arte de nutrir a vida se constitui de práticas que nos mostram que a saúde verdadeira vai além da mera ausência de doenças, sendo nutrida pela atenção dedicada a todos os aspectos do nosso ser.
São práticas que uma pessoa pode fazer ou desenvolver em e para si mesma e inclui: engloba a escolha cuidadosa de alimentos, bebidas, equilíbrio apropriado entre as horas de atividade e descanso (dormir mesmo!), viver em harmonia com os ciclos das estações, do dia e da noite; reduzir atividades desnecessárias, harmonizar as emoções e evitar coisas/situações que causam doenças/ferimentos/dores.
Os primeiros capítulos do Su wen descrevem isso na teoria e na prática. Textos posteriores acrescentam detalhes.
Reduzindo o dano
Nutrir a vida é comparado à prática de jardinagem. Algumas práticas são como plantar sementes desejadas para o cultivo. Outras práticas se assemelham a arrancar ervas daninhas, ou seja, eliminar as atividades que causam danos. Evitar comportamentos prejudiciais é tão vital quanto cultivar os benéficos.
A vida inclui lista de atividades a serem realizadas e outras a serem evitadas. O objetivo é, ora plantar sementes que promovam a saúde e ora arrancar ervas daninhas que levam ao envelhecimento e à doença.
Nesse contexto, é essencial entender que nossas ações diárias moldam não apenas nosso presente, mas também nosso futuro.
A lista mais antiga desses preceitos concentra-se nos comportamentos que devemos evitar, destacando a importância da prevenção:
- Realizar atividades por longos períodos ou com intensidade excessiva pode prejudicar nosso sistema sanguíneo.
- Permanecer deitado por longos períodos pode afetar negativamente nossa energia vital, nosso Qi.
- O prolongado tempo sentado pode comprometer a saúde de nossa estrutura física, nossa carne.
- Ficar em pé por longos períodos pode gerar desgaste em nossos ossos.
- Caminhar por extensos períodos pode causar danos aos nossos nervos.
Essas orientações antigas nos lembram da importância de uma variedade de atividades ao longo do dia, sem cair em excessos prejudiciais. Um exemplo comum nos tempos modernos é o estilo de vida sedentário de muitos profissionais, passando longas horas sentados em frente ao computador.
Alimentando a Vida: Escolhas Conscientes
Nutrir o corpo é mais do que apenas satisfazer a fome; é uma arte delicada que requer escolhas conscientes e equilibradas. Nos ensinamentos antigos, encontramos uma valiosa lista de sete danos a serem evitados, publicada no ano 610, que oferece insights profundos sobre como nossas escolhas afetam não apenas nosso corpo, mas também nossa mente e espírito.
Excesso de Alimentação: Consumir em excesso pode sobrecarregar o baço, afetando negativamente nosso sistema digestivo e energia vital.
Raiva Descontrolada: A raiva crônica não apenas prejudica nossas relações interpessoais, mas também pode causar danos ao fígado, afetando nossa saúde emocional e física.
Esforço Excessivo: O uso constante de força bruta, seja levantando objetos pesados ou permanecendo em ambientes úmidos, pode sobrecarregar os rins, afetando nosso equilíbrio interno.
Exposição ao Frio: Deixar o corpo exposto ao frio pode comprometer a saúde dos pulmões, tornando-nos mais suscetíveis a doenças respiratórias e desconforto físico.
Consumo de Bebidas Frias: Beber líquidos gelados pode causar danos aos pulmões, impactando nossa capacidade respiratória e vitalidade.
Excesso de Emoções Negativas: Sentimentos de tristeza, preocupação e pensamentos excessivos podem prejudicar tanto o baço quanto o corpo físico, afetando nosso bem-estar geral.
Medo Descontrolado: O medo crônico e descontrolado pode danificar o zhi, nosso espírito, afetando nossa estabilidade emocional e mental.
Por exemplo, ao lidar com pacientes com problemas renais, é essencial orientá-los a evitar esforços físicos excessivos que possam sobrecarregar os rins. Da mesma forma, se esse é o trabalho do paciente, podemos proteger os rins na terapêutica.
Há ainda 3 avisos importantes (escritos no ano 819):
1. Não ir e vir sem propósito – pois representa um desperdício desnecessário de nossa energia vital, o Qi.
2. Não falar/tagarelar sem fundamento - uso desnecessário do Qi – palavras imprudentes podem causar problemas e inquietar o espírito.
3. Manter-se livre de ansiedade e preocupação, pois essas emoções podem minar nossa saúde e bem-estar.
Sun Si Miao, autor de "Fórmulas que Valem Mil Moedas de Ouro", ressaltou em suas 12 resoluções a importância de evitar certos excessos para preservar a vida e a vitalidade. Ele enfatiza que, alguém que é bom em manter a vida, faz o que segue, constantemente:
1. Controlar o excesso de pensamentos, pois isso pode afetar nossa essência espiritual, o Shen.
2. Moderar as lembranças excessivas, pois podem dispersar nossa vontade, o zhi.
3. Equilibrar o desejo para evitar confusões e turbulências emocionais, para não desestabilizar o zhi.
4. Evitar o excesso de atividades, que pode esgotar nosso corpo físico e mental.
5. Regular a fala para preservar nossa energia vital, o Qi. A fala excessiva esgota o Qi
6. Modular o riso para proteger nossos órgãos internos, os zang-fu.
7. Controlar o luto excessivo para manter a estabilidade emocional do coração.
8. Gerenciar a alegria para não perder o controle sobre nossos pensamentos, o Yi.
9. Equilibrar a alegria para evitar esquecimentos e confusões mentais.
10. Controlar a raiva para manter o equilíbrio dos meridianos e sua circulação de energia.
11. Evitar preferências excessivas, que podem nos distrair de nossos objetivos e perder nos faz o foco.
12. Reduzir as aversões excessivas para manter o ânimo e a motivação.
Encontrar o equilíbrio na vida não significa necessariamente evitar por completo as atividades que podem nos afetar negativamente, mas sim buscar maneiras de reduzir sua influência sobre nós. É uma jornada de autoconsciência e autogestão, onde aprendemos a moderar nossas respostas.
Preservar constantemente os bons sentimentos (mesmo quando os outros nos fazem o mal). Ao escolher responder com bondade mesmo diante da adversidade, cultivamos um coração generoso e aberto, nutrindo relacionamentos saudáveis e evitando a armadilha da raiva e ressentimento.
Preservar constantemente os sentimentos de bondade (ter prazer em ajudar e evitar a raiva).
Preservar constantemente os sentimentos de contentamento (mesmo quando há sofrimento, apreciar o que você realmente tem). É nossa capacidade de encontrar alegria nas pequenas coisas da vida.
Preservar constantemente os sentimentos saudáveis (aprecie qualquer nível de saúde que você tenha atualmente). Ao apreciar e cuidar de nosso bem-estar físico e mental, estamos investindo em nossa longevidade e qualidade de vida.
Preservar constantemente um coração pacífico (reduzir desejos e isso mantém a mente pacífica). Manter um coração pacífico requer disciplina e prática. Reduzir os desejos e encontrar contentamento no momento presente nos ajuda a alcançar um estado de tranquilidade interior, mesmo diante das turbulências da vida.
Conservar constantemente um coração feliz, isso promove a longevidade. Ao buscar ativamente atividades e práticas que elevem nosso humor e promovam nosso contentamento, estamos investindo em nossa própria felicidade e bem-estar emocional.
As duas últimas muito me agradam , porque elas descrevem atividades que podemos fazer para ajustar nosso humor e elevar o nosso nível de contentamento.
Há ainda a descrição dos 10 prazeres que em resumo consistem em sentar, ler livros edificantes, sair na natureza, ter interação social, ajudar os outros, saborear pequenos prazeres sensoriais como chá, o incenso, a música, exercícios físicos ou mentais leves.
Nessa descrição, a visão, audição, paladar e o olfato são mencionados, alorizando o estímulo dos nossos sentidos.
As especificidades da lista poderiam ser atualizadas para nossos tempos, mas sua essência ainda é apropriada. É preciso alguma disciplina e tempo para cultivar a consciência dessas coisas e valorizá-las. Ao reservar um momento todos os dias para apreciar um desses pequenos luxos, estamos nutrindo nossa alma e promovendo uma maior consciência dos momentos preciosos da vida.
É possível estabelecer metas diárias. Por exemplo, todos os dias desfrutar de algum pequeno prazer, como saborear verdadeiramente uma xícara de chá ou de café, ou até um bom vinho enquanto não se faz mais nada, sentindo seus aromas. Pensar nas coisas que o fez feliz nesse dia. Fazendo de forma constante, a atividade se torna hábito. O hábito de perceber o que antes não era apreciado. Isso saí do exercício diário e passa a ser natural. Passamos a ver pequenos prazeres na vida diária, pois a atenção estará voltada para eles.
Admirar fotografias, tirar fotografias, caminhar em um parque, praticar um hobby criativo, ou simplesmente desligar o telefone e estar presente no agora são outras maneiras poderosas de enriquecer nossa existência e fortalecer nosso vínculo com o mundo ao nosso redor.
Este compromisso com o autocuidado não apenas nos beneficia individualmente, mas também nos capacita a cuidar dos outros de forma mais significativa, para encontrarem mais contentamento e amorosidade com suas vidas e saúde.
Os antigos gostavam de fazer listas do sim e não, incorporando suas experiências. Ainda hoje elas podem nos ajudar a guiar nossas vidas quanto a como viver mais tempo, ter uma vida mais saudável e mais contente.

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