Quando o Qi Floresce, a Dor se Despede - Parte II
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| Cristiane Sanchez |
Na Medicina Tradicional Chinesa, a compreensão da dor é intrínseca à noção de equilíbrio ou homeostase dos processos biológicos. O funcionamento adequado desses processos é mantido pelo fluxo harmonioso de duas substâncias fundamentais, Qi e Sangue, que são essenciais para as operações vitais do organismo. Conforme expresso no "Livro de Medicina Interna do Imperador Amarelo", "quando o Qi e o Sangue fluem livremente, não há dor; entretanto, qualquer interrupção nesse fluxo pode resultar em manifestações dolorosas" (Imperador Amarelo, Capítulo 4). Assim, a dor é um sinal claro de disfunção dessas substâncias vitais.
No âmbito da Medicina Tradicional Chinesa, Qi e Xue (Sangue) são frequentemente associados às funções do sistema nervoso e do sistema circulatório, respectivamente. O fluxo ininterrupto dessas energias é crucial para o bem-estar, enquanto sua estagnação pode levar à dor. Conforme observado no "Clássico de Perguntas Simples", "quando o Qi é estagnado, ocorre uma sensação de distensão ou traumatismo, frequentemente acompanhada de alterações emocionais significativas" (Perguntas Simples, Capítulo 8).
Por outro lado, a estase de Sangue resulta em sensações de tumefação dolorosa ou dor aguda e localizada, como descrito no "Clássico de Medicina Interna", onde se afirma que "a estase do Sangue se manifesta através de dores intensas e bem delimitadas" (Medicina Interna, Capítulo 12).
Além disso, a deficiência de Qi e Sangue pode resultar em um fluxo obstruído dessas substâncias vitais, culminando em uma dor de caráter mais contínuo e duradouro. Como mencionado no "Livro de Medicina Interna do Imperador Amarelo", "a dor que piora após o repouso e melhora com atividade leve é atribuída à deficiência simultânea de Qi e Sangue" (Imperador Amarelo, Capítulo 10).
Durante o repouso ou a imobilidade, há uma diminuição significativa no fluxo de Qi e Sangue, resultando em uma insuficiência dessas substâncias vitais para circular pelo corpo. Por outro lado, o movimento ativo induzido pelo exercício promove a circulação adequada de Qi e Sangue, proporcionando alívio para esse tipo de dor ao estimular o fluxo energético e sanguíneo. A dor resultante da deficiência de Qi tende a se intensificar no final do dia, após atividade extenuante, enquanto a dor relacionada à deficiência de Sangue é frequentemente mais acentuada durante a noite.
No contexto da síndrome Bi, que corresponde à dor músculo-esquelética crônica, a compreensão da Medicina Tradicional Chinesa é aprofundada. Conforme explicado no "Clássico de Medicina Interna", "a interrupção do fluxo de Qi e Sangue nos meridianos é a causa fundamental dessa síndrome" (Medicina Interna, Capítulo 20). Essa interrupção pode ser atribuída à presença persistente de um Fator Patogênico, que prejudica tanto as funções nutritivas quanto defensivas do organismo, como descrito no "Livro de Perguntas Simples", onde se afirma que "a deficiência de Qi e Sangue favorece a ação nociva dos fatores patogênicos" (Perguntas Simples, Capítulo 15).
Os princípios fundamentais da Medicina Tradicional Chinesa fornecem uma compreensão profunda da dor e de suas diversas manifestações. Por meio da harmonização do Qi e do Sangue e do tratamento adequado das síndromes Bi, a acupuntura e outras modalidades da MTC oferecem uma abordagem eficaz e holística para o alívio da dor músculo-esquelética crônica e a restauração do equilíbrio energético do corpo.

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